Celebrado em 16 de outubro, o Dia Mundial do Pão marca a importância de um alimento que atravessa séculos e fronteiras culturais.
O pão é basicamente uma combinação de farinha, água, fermento e sal, ingredientes simples, que em si não representam um problema. O que transforma o pão em uma opção mais ou menos saudável é o grau de processamento e a forma como ele é inserido na rotina alimentar. O vilão não é o pão, é o contexto.
Uma das crenças mais comuns é a de que o pão engorda. Esse é um dos mitos mais persistentes: O pão não tem uma característica intrínseca que o torne um alimento engordativo. O que leva ao ganho de peso é o excesso calórico total e a baixa qualidade da dieta. É perfeitamente possível emagrecer comendo pão, desde que ele caiba no plano alimentar e venha acompanhado de proteínas e boas gorduras. Associar o pão a alimentos ricos em proteína e fibra, como ovos, queijo ou abacate, ajuda a reduzir o impacto glicêmico e prolongar a saciedade.
Mas estas não são as únicas dúvidas sobre o pãozinho nosso de cada dia. Na lista a seguir, outros mitos e verdades sobre o alimento.
1. Pão inflama o corpo
MITO. Não há evidências científicas de que isso aconteça em pessoas saudáveis. A ideia de que o pão, ou o glúten, causa inflamação generalizada é uma simplificação perigosa. O que pode provocar sintomas inflamatórios é a intolerância individual, como a sensibilidade ao glúten ou a disbiose intestinal. Fora desses casos, o pão não inflama e pode, inclusive, contribuir para uma dieta equilibrada, dependendo da sua composição.
2. Torrar o pão elimina o glúten
MITO. O glúten é uma proteína do trigo que se mantém estável ao calor, ou seja, não é destruída quando o pão é tostado. O que muda ao torrar o pão é apenas a textura e, em alguns casos, o índice glicêmico, que tende a cair levemente quando o amido passa a se comportar como amido resistente. Esse processo, de fato, pode trazer benefícios: o amido resistente funciona como uma fibra, alimentando as bactérias boas do intestino e auxiliando no controle da glicose.
3. Pão de forma é ultraprocessado
VERDADE. O pão de forma industrializado é um ultraprocessado. Isso não significa que ele seja automaticamente nocivo, mas exige atenção. O pão de forma costuma conter conservantes, emulsificantes, açúcar e gordura vegetal hidrogenada para aumentar a durabilidade e a textura. Esses aditivos, quando consumidos com frequência, podem prejudicar a microbiota intestinal e aumentar a inflamação sistêmica em pessoas sensíveis. Por isso, o ideal é priorizar versões mais simples, com poucos ingredientes e fermentação natural. O pão artesanal, com farinha integral e fermentação lenta, tende a ser mais nutritivo e melhor tolerado.
4. A fermentação natural deixa o pão mais saudável
VERDADE. Ao fermentar lentamente, os microrganismos da massa mãe pré-digerem parte do glúten e dos açúcares, tornando o pão mais leve e de menor índice glicêmico. Além de saboroso, esse processo favorece a digestibilidade e pode beneficiar o equilíbrio intestinal. É um tipo de pão que dialoga com o conceito de alimentação funcional.
5. É ruim comer pão todos os dias
MITO. Quanto à frequência, comer pão todos os dias não é, por si só, prejudicial. O problema, está na repetição e na falta de variedade alimentar. Se a base da alimentação for sempre a mesma, pão de manhã, pão à tarde, pão à noite, há risco de monotonia nutricional. Mas incluir pão diariamente dentro de uma dieta equilibrada, rica em frutas, vegetais e proteínas, é perfeitamente possível e saudável. O segredo, é a diversidade de fontes e o equilíbrio calórico.
6. Comer pão provoca gases e inchaço
PARCIALMENTE VERDADE. Algumas pessoas relatam desconforto, gases e inchaço após o consumo de pão, o que leva à crença de que ele é sempre mal tolerado. Na maioria das vezes, o desconforto não vem do pão em si, mas de uma microbiota intestinal desequilibrada. Pães com fermentação natural e menos aditivos tendem a ser mais bem aceitos. Já versões ultraprocessadas podem agravar sintomas em pessoas predispostas.
7. Comer pão à noite engorda
MITO. Há também quem evite o pão à noite por medo de engordar. O corpo não ?acumula gordura? de forma diferente conforme o horário da refeição. O metabolismo continua ativo, mesmo à noite. O que importa é o total calórico e o equilíbrio ao longo do dia. O pão noturno só será um problema se estiver associado a exageros.
8. Congelar e reaquecer o pão o torna mais saudável
PARCIALMENTE VERDADE. Isso ocorre porque o processo transforma parte do amido em amido resistente, que age como fibra. É uma boa estratégia para quem quer controlar o índice glicêmico sem abrir mão do pão. E no fim das contas, o impacto do pão na saúde depende mais da qualidade e da quantidade do que de regras absolutas.
O pão segue sendo um alimento histórico, acessível e afetivo, que pode e deve ter lugar na mesa sem culpa e com consciência. Não há motivo para demonizar o pão. Ele é fonte de energia, tradição e prazer. O que precisamos é aprender a escolher melhor e respeitar os sinais do corpo.
Fonte
Dr. Danilo Nunes Almeida ? Médico. Pós-graduado em Nutrologia pela ABRAN (Associação Brasileira de Nutrologia). Pós-graduando em Metabolômica pela Academia Brasileira de Medicina Funcional Integrativa. Fundador da Clínica Versio, localizada em Vitória (ES).