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As festas de fim de ano costumam reunir família, afetos e uma mesa farta, mas, para muitas crianças seletivas, o cenário pode ser sinônimo de estresse. Pratos desconhecidos, temperos fortes, horários irregulares e comentários de parentes criam um ambiente desafiador tanto para a criança quanto para os pais.


A seletividade não é ?manha?, mas, uma dificuldade real que piora com pressão. A criança seletiva já chega às festas lidando com estímulos novos demais: cheiros, texturas, barulho, gente opinando. Quando ela sente segurança, ela come melhor; quando sente cobrança, come menos.


Segundo a Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), a prevalência de dificuldades alimentares na infância varia entre 20% e 60% no mundo, com índices brasileiros entre 37% e 44%. A mudança de ambiente impacta diretamente o comportamento alimentar. Fora da sua zona de conforto, a criança pode recusar alimentos simplesmente porque não reconhece o cheiro, o tempero ou a apresentação. Isso não é teimosia é proteção.

 

Como preparar a criança antes da festa


A previsibilidade é uma aliada poderosa. Os pais devem antecipar o cardápio usando fotos ou descrições simples. Manter os horários habituais das refeições evita fome excessiva e irritabilidade. E permitir que a criança leve um alimento de preferência dá a ela um ponto de segurança.

Combine o plano com a criança: ?vai ter muita comida diferente, mas, você pode comer o que gosta e, se quiser, experimentar algo novo?. Quando ela sabe o que esperar, chega mais tranquila e aberta ao novo.

 

Estratégias que funcionam na prática e evitam brigas:

 

1. Leve de 1 a 3 alimentos seguros

São aqueles que a criança aceita bem, sem conflitos: arroz branco, pão ou torrada, frutas favoritas, batata cozida ou purê.

Ter opções conhecidas reduz a ansiedade e impede que a criança fique sem comer por falta de alternativas.

 

2. Adapte os pratos da festa com versões neutras

Carnes separadas sem molho;

Legumes cozidos sem tempero forte;

Porções pequenas dos pratos comuns, mas em versões menos intensas.

 

3. Use o ?prato dividido?

Monte com três categorias: alimentos seguros, alimentos familiares (que ela conhece, mas nem sempre aceita), alimentos novos (apenas para exposição, sem obrigar a comer). Participar da refeição já é uma forma de exposição positiva. Experimentar pode acontecer, mas sem pressão.

 

As festas também trazem um elemento sensível: os comentários dos parentes. Os adultos precisam entender que uma criança com desafios alimentares encara a aceitação dos alimentos de maneira diferente. Questionamentos na frente dela criam vergonha e pioram a seletividade. Jamais se deve forçar ou insistir para que ela coma.

 Frases prontas ajudam a encerrar a situação com elegância:

?Estamos seguindo o ritmo dela.?

?Ela está aprendendo a experimentar sem pressão.?

?Está tudo bem, temos opções para ela.?

 

Inclua a criança no preparo, funciona muito mais do que insistir. Dar pequenas tarefas pode aumentar significativamente a aceitação: misturar ingredientes, montar uma salada, escolher formatos de biscoitos. Crianças tendem a experimentar mais aquilo que ajudaram a preparar. Elas se sentem parte do processo.


A seletividade merece atenção quando: persiste após os 5 anos; envolve recusa severa de grupos alimentares; compromete crescimento, desenvolvimento ou saúde geral. O tratamento deve ser multidisciplinar, envolvendo pediatra, nutricionista e, quando necessário, terapeuta ocupacional ou fonoaudiólogo.


Com planejamento, respeito e estratégias adequadas, as festas podem deixar de ser um momento de tensão para se tornarem oportunidades de aprendizado alimentar.


O mais importante é preservar o vínculo e a relação da criança com a comida. A ceia deve ser um momento de convivência, não de cobrança.

 

Fonte


Renata Riciati - Nutricionista materno-infantil e especialista em saúde da família, com mais de 20 anos de experiência em comportamento alimentar infantil, seletividade alimentar e terapia nutricional para crianças com TEA (Transtorno do Espectro Autista) e TDAH. Formada pela Universidade Anhembi Morumbi, possui pós-graduação em Nutrição Clínica pela Universidade São Camilo e ampla atuação em consultório, escolas e projetos voltados à educação alimentar.


Dra. Elisabeth Canova Fernandes - Médica formada pela Faculdade de Medicina do ABC .Residência médica em pediatria pela FMUSP. Mestrado e doutorado em pediatria pela FMUSP. Pós-graduação em nutrição infantil pela Boston University e também pela Ludwig Maximilian University of Munich.