Longe de ser apenas uma ?fase?????, a seletividade alimentar em crianças com Transtorno do Espectro Autista pode ?gerar? ?impactos significativos à? saúde, incluindo carências nutricionais e impactos no desenvolvimento. ?O? Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) aponta que cerca de 2,4 milhões de brasileiros têm diagnóstico de TEA, o equivalente a aproximadamente 1,2% da população. O dado ajuda a dimensionar a relevância de um desafio ainda pouco compreendido no cotidiano das famílias: a dificuldade alimentar e seus reflexos no bem-estar ?infantil?.
Para muitas famílias, o momento das refeições transforma-se em tensão. A recusa a determinados alimentos ?vai além de? uma simples escolha. Em muitos casos, ela está relacionada ?à forma como os estímulos sensoriais são percebidos.?
A origem do problema está no processamento sensorial. No TEA, estímulos como textura, cheiro e temperatura costumam ser aversivos ou até dolorosos.
Essa sensibilidade ajuda a entender por que muitos dos pacientes aceitam apenas um grupo muito restrito de alimentos. A rigidez cognitiva, característica frequente no autismo, reforça a necessidade de previsibilidade, tornando qualquer mudança um desafio.
A ideia de que quem sente fome, come não se aplica a esses casos. Muitas crianças preferem ficar em jejum a ingerir algo que provoque desconforto sensorial.
Quando há exclusão de grupos alimentares inteiros, baixo ganho de peso ou perda ponderal, alterações intestinais ou conflitos intensos durante as refeições, é importante buscar avaliação.
Muito além da alimentação
??Deficiências de nutrientes como ferro, vitamina D, cálcio e vitaminas do complexo B são comuns e podem comprometer a imunidade, cognição e comportamento???.?? Desconfortos gastrointestinais, por exemplo, levam à irritabilidade e desregulação emocional, criando um ciclo difícil de romper.
Por isso, a abordagem deve ser ampla e multidisciplinar. O cuidado não se limita à alimentação e ?costuma? envolver nutricionista, terapeuta ocupacional e psicólogo. A exposição gradual aos alimentos, respeitando o tempo da criança, faz parte desse processo.
No dia a dia, o ambiente faz diferença. Pressão, insistência ou punição tendem a agravar a recusa. O ideal é um ambiente previsível, tranquilo e sem confronto.
Do ponto de vista nutricional, pequenas estratégias contribuem para ampliar o repertório alimentar sem gerar estresse. É importante oferecer o alimento várias vezes, em diferentes formas, sem forçar. O simples contato visual já representa um avanço.
A profissional ressalta que associar um alimento já aceito a pequenas porções de outro, ainda novo, também ?ajuda na? adaptação. Além disso, a introdução deve considerar as preferências individuais.
Ao mesmo tempo, garantir a ingestão adequada de nutrientes é fundamental. A suplementação pode? ?inclusive ?ser ?indicada? ?de forma individualizada.
Outro ponto sensível é o ambiente escolar. Para evitar longos períodos sem alimentação, há respaldo legal em São Paulo para que crianças com TEA levem seus próprios alimentos, desde que haja indicação médica. A medida busca reduzir riscos de desnutrição e complicações clínicas.
Tratar a seletividade alimentar como ?uma ?simples resistência pode atrasar o diagnóstico e a intervenção adequada. Reconhecer o problema é o primeiro passo para garantir não apenas uma alimentação mais equilibrada, mas também mais qualidade de vida para a criança e sua família.
Fonte
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Dra. Nely Sartori - Neurologista do Hospital Regional de Assis, unidade da Secretaria de Saúde do Estado de São Paulo (SES-SP), gerenciada pelo CEJAM - Centro de Estudos e Pesquisas "Dr. João Amorim".
Ana Carolina de Morais - Nutricionista da UBS Jardim Aracati, unidade da Secretaria Municipal da Saúde de São Paulo (SMS-SP) gerenciada pelo CEJAM - Centro de Estudos e Pesquisas ?Dr. João Amorim? .