builderall

Em meio à crescente popularização de conteúdos nas redes sociais que incentivam o uso precoce de suplementos, a Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) publicou, no último dia 5 de maio, uma nota de alerta sobre o consumo de whey protein e creatina por crianças e adolescentes. O tema, cada vez mais presente no dia a dia das famílias, também tem ganhado espaço nos consultórios.


A nota da SBP é categórica ao afirmar que não existe indicação para o uso rotineiro de whey protein e creatina em crianças e adolescentes saudáveis. Esse é um dos pontos mais importantes do documento, já que combate uma percepção equivocada que vem se consolidando nos últimos anos. A ideia de que crianças precisam de suplementação proteica para crescer melhor ou ganhar massa muscular simplesmente não encontra respaldo científico na maioria dos casos.


A necessidade proteica nessa fase da vida costuma ser superestimada. Crianças e adolescentes saudáveis necessitam, em média, de 0,85 a 0,95 g/kg/dia de proteína, valores facilmente atingidos por meio de uma alimentação equilibrada. Na prática clínica, muitos pacientes já consomem mais proteína do que o necessário apenas com a dieta habitual.


Outro ponto de atenção está na forma como esses produtos vêm sendo apresentados ao público jovem. Hoje vemos suplementos com embalagens chamativas, sabores adocicados e versões em goma ou bebida pronta, o que cria uma falsa sensação de que são produtos comuns da alimentação infantil. Essa estratégia contribui para a banalização do consumo e reduz a percepção de risco.


Do ponto de vista metabólico, o uso indiscriminado também levanta preocupações. Transformar suplementação em hábito, especialmente sem necessidade clínica, não é algo trivial. Existe uma sobrecarga metabólica que pode impactar rins, fígado e outros sistemas ao longo do tempo. Embora uma dose isolada não represente necessariamente um dano imediato, o uso contínuo sem acompanhamento pode trazer repercussões.


O contato precoce com suplementação e cultura de hipertrofia pode modificar a relação da criança com alimentação e imagem corporal, criando a ideia de que desempenho depende de produtos industrializados.


A suplementação não é proibida, mas deve ser exceção e não regra. Existem situações clínicas específicas em que pode ser necessária, mas isso deve ser sempre individualizado e acompanhado por profissionais capacitados. Crianças e adolescentes saudáveis não precisam de whey protein ou creatina para crescer adequadamente. O foco deve estar em alimentação equilibrada, prática regular de atividade física, sono de qualidade e construção de hábitos saudáveis desde cedo.


Fonte

Dr. Miguel Liberato - Endocrinologista pediátrico. Referência em crescimento infantil em São Paulo.